A ênclise no português brasileiro: conhecimento explícito ou implícito?
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Resumo
Embora o português brasileiro (PB) seja caracterizado pela generalização da colocação pré-verbal (próclise) dos pronomes clíticos, a colocação pós-verbal (ênclise) é ensinada nas escolas brasileiras, muito pela persistência no ensino de regras baseadas no português europeu. A literatura sugere que, apesar da explicitação das regras, em dados orais, os falantes mantêm a preferência pela próclise e a ênclise emerge principalmente em situações de fala mais monitorizada ou na modalidade escrita sem que a configuração sintático-discursiva desempenhe um papel central na colocação pronominal. Tais afirmações são corroboradas pelo estudo de Pereira (2023a), que constatou que ambas as colocações são aceites pelos falantes do PB inobstante o contexto sintático. No entanto, a origem desse conhecimento ainda levanta dúvidas: visto que a colocação pronominal é abordada em salas de aula, questiona-se se o produto da aquisição da ênclise via escolarização é somente o conhecimento explícito, o qual é passível de ser acedido conscientemente, ou se é, também, o conhecimento implícito (tácito e intuitivo). Vinte e oito nativos do PB escolarizados julgaram frases com o clítico em próclise ou em ênclise em diferentes contextos sintáticos durante uma tarefa de juízos de aceitabilidade com pressão de tempo, recolhendo, além dos juízos, o tempo de reação para a tomada de decisão. Similarmente ao estudo de Pereira (2023a), os itens com próclise foram mais bem avaliados do que aqueles com ênclise, à exceção do caso de frases negativas; porém, os itens com próclise tiveram um tempo de reação maior do que o dos itens com ênclise, embora esta diferença não tenha sido significativa. Os dados sugerem a aquisição da ênclise como parte do conhecimento implícito dos falantes do PB escolarizados (mas sem que haja, em princípio, a aquisição das restrições sintáticas para o seu uso), indicando que poderá ser a variante mais facilmente acessível em determinados contextos/modalidades, o que instiga a investigações futuras.
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