Estalo, Chiado, Crepitação, Pop: Conservação Contrafactual como Prática Atencional
DOI:
https://doi.org/10.34619/i9g4-4yb7Palavras-chave:
conservação contrafactual, atenção institucional, emissões acústicas, prática arquivística, Victoria and Albert MuseumResumo
Este ensaio emerge de uma abordagem contrafactual à documentação institucional, reaproveitando práticas baseadas na conservação—mais concretamente no Registo de Atividades do Museu, oficialmente designado “Módulo de Captura de Atividade”—transformando uma ferramenta de controlo do tempo numa prática arquivística criativa. Esta experiência não oficial, desenvolvida durante a pandemia e os seus confinamentos, tornou-se uma forma de atender ao que passa despercebido: as texturas e ritmos subjacentes às lógicas de responsabilização institucional. O trabalho manifesta-se de forma sonora e material: gravações de campo do clamor vespertino da cantina—vozes, o tilintar da loiça, os sons de um museu em pleno funcionamento—misturando-se depois com o silêncio inquietante do confinamento pandémico; o zumbido mecânico dos sistemas do edifício em galerias vazias, rádios de segurança crepitando por corredores desertos; imagens digitais emergentes; os objetos e as condições do seu cuidado; notas de voz sussurradas no brilho vermelho da câmara escura. A paisagem sonora mudou de burburinho institucional para uma quietude fantasmagórica, revelando o que a cacofonia quotidiana havia mascarado. Ao recuperar esta ferramenta administrativa, procurei criar um espaço para deriva temporal, para respirar, onde a vivacidade do trabalho de conservação pudesse emergir para além de métricas quantificadas. Este espaço recuperado estende-se para além da página escrita, encontrando uma forma dinâmica e ativada em Museum Soundings — um arquivo online (museu-dentro-de-museus) que convida os leitores a experienciar: Como é sentir um museu a pensar? Como é estar perto de um objeto e em dúvida? O arquivo aloja as gravações de emissões acústicas aqui discutidas, caminhadas sonoras das minhas deambulações por espaços institucionais, e o próprio Registo de Atividades. Este espaço polifónico convida os leitores a moverem-se entre análise textual e escuta incorporada, entre o enquadramento teórico do ensaio e as texturas vividas que descreve, tornando a experiência 'vivida' da duração central ao desenrolar da obra.
Referências
Bergson, Henri. 1998. Creative Evolution. Translated by Arthur Mitchell. Mineola, NY: Dover.
Foucault, Michel. 1986. “Of Other Spaces.” Translated by Jay Miskowiec. Diacritics 16 (1): 22–27. https://doi.org/10.2307/464648.
Harney, Stefano, and Fred Moten. 2013. The Undercommons: Fugitive Planning and Black Study. Wivenhoe: Minor Compositions.
LaBelle, Brandon. 2006. Background Noise: Perspectives on Sound Art. New York: Continuum.
_____. 2021. Acoustic Justice: Listening, Performativity, and the Work of Reorientation. New York: Bloomsbury Academic.
Moten, Fred. 2018. Stolen Life. Durham, NC: Duke University Press.
Pretzel, Boris. 2014. “[Un]Reasonable: Broadening Acceptable Climate Parameters for Furniture on Open Display.” In ICOM-CC 17th Triennial Conference Preprints, Melbourne, 15–19 September 2014, edited by J. Bridgland, art. 1507. Paris: International Council of Museums.
Stengers, Isabelle. 2011. “The Care of the Possible.” Interview by Erik Bordeleau, translated by Kelly Ladd. Scapegoat 1: 12–17, 27.
_____. 2023. Making Sense in Common: A Reading of Whitehead in Times of Collapse. Translated by Thomas Lamarre. Minneapolis: University of Minnesota Press.
Whitehead, Alfred North. 1978. Process and Reality: An Essay in Cosmology. Corrected edition, edited by David Ray Griffin and Donald W. Sherburne. New York: Free Press.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Secção
Licença
Direitos de Autor (c) 2026 Simon Fleury

Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.