O Novo Espaço (Público): Sobre Cidades, Centros Comerciais, Manifestações Políticas e o Futuro dos Espaços Públicos
Palavras-chave:
Centros comerciais, espaços privados de uso colectivo, manifestações políticas, Portugal, EuropaResumo
Entre a versão romantizada de uma Ágora grega e os intensos centros comerciais contemporâneos não existe provavelmente uma diferença tão grande como a que podemos supor, pois ambos se confundem com os mercados de então e com as praças públicas de hoje. Antes, tal como agora, existe uma clara distância entre a produção de discurso e a vivência “low cost” dos espaços simbólicos da cidade.
É um facto que os centros comerciais são, em geral, vistos e utilizados pelas pessoas como “espaços públicos” efetivos da cidade contemporânea.
E, prova disso, é a forma como vemos emergir hoje nestes fenómenos que seriam dificilmente visíveis fora de determinados espaços públicos, como tribos urbanas, celebrações desportivas, manifestações políticas e greves, ou mesmo eventos bizarros: como suicídios cometidos dentro dos seus espaços. Traços que, juntos, nos fazem considerar sobre a verdadeira natureza destes lugares heterotópicos.
Assim, se hoje o quotidiano urbano dos habitantes europeus é indiscutivelmente tanto ligado à vivência dos seus espaços públicos como dos seus centros comerciais; não será de estranhar que as contestações políticas de hoje sejam tanto visíveis nas praças da cidade como nas “praças” dos centros comerciais, onde as manifestações começam a ser cada vez mais comuns.
Por exemplo, em Portugal, observamos desde 2007, a uma utilização sistemática dos centros comerciais como uma arena de protestos políticos, geralmente contra condições de trabalho precárias; sendo que relativamente a este tópico, este ensaio tentará precisamente mapear estas e outras práticas “públicas” que ocorrem numa ampla gama de espaços privados de uso colectivos na Europa.
Inquestionavelmente, esta “quase” condição pública dos centros comerciais contemporâneos aumentará a dúvida sobre o papel que estas tipologias comerciais poderão ainda vir tomar na construção da cidade europeia, dando um significado completamente novo à afirmação bem conhecida de Jordi Borja e Zaida Muxí. de que "o espaço público (...) é [o lugar] onde a sociedade se torna visível" (Borja, Muxi; 2003: 15). Assim, e apesar de ainda não sabermos nos que estes se estão a transformar; temos, no entanto, uma forte suspeita: que, num futuro próximo, estes serão lugares mais “públicos"” do que “comerciais”.
