Além das questões superficiais: Visões perturbadoras de uma paisagem ocidental americana
DOI:
https://doi.org/10.34619/oijo-u6ivPalavras-chave:
Shoshone, Interstate 80, fotografia, visualidade decolonial, paisagemResumo
Em Nevada (1979), o fotógrafo Glenn Rand’s (nascido em 1944, EUA) mostra um carro a passar pela autoestrada Interestadual 80, uma área industrial, e pelo vale do rio Humboldt, no Condado de Eureka. Através deste título lacónico, este lugar parece ser, ao mesmo tempo, específico de uma nação colonizadora, da sua história e ima-ginação poética, e revelador de nenhum lugar. A viagem aleatória de Rand para o oeste ofereceu-lhe uma opor-tunidade de aumentar a consciência da visão através da sensação cinestésica. Entre muitos de seus colegas artis-tas, a localização de uma fotografia era um ponto de partida arbitrário para explorar questões de superfície. Este artigo redireciona a atenção das preocupações formalistas do artista para investigar as narrativas complexas e conflitantes que a autoestrada Interestadual 80 implica. O artigo insere esta imagem na história mais alargada do formalismo modernista e da fotografia de paisagem americana, onde viagens e paisagens estéticas são indicativas da visualidade colonizadora.
Após a sua conclusão em 1986, a interestadual foi considerada símbolo da liberdade americana, particularmente da liberdade de mobilidade. Contudo, ver esta autoestrada desta forma implica apagar o encontro colonial e a presença indígena. O vale do rio Humboldt retratado em Nevada, em 1979, faz parte do território maior dos Newe (Western Shoshone,) na região da Grande Bacia. Não é uma visão arbitrária; ele atravessa uma paisagem cultural, um lugar que incorpora valores, identidades e memórias Newe. Além disso, a Interstate 80 foi construída no topo de um caminho histórico que guiou os colonos para o oeste até a Califórnia. Também foi alinhado com o caminho da primeira ferrovia transcontinental. O impacto ambiental e social do fluxo de colonos nesta região foi significativo.
Ao alargar o interesse de Rand pela questão do movimen-to ao estudo dos vários caminhos, migrações e bloqueios codificados nesta paisagem, este artigo perturba [“unsettles” — descoloniza] esta imagem e contraria a cegueira histórica e o desengajamento artístico com a terra, que produziu o obscurecimento da presença e autoridade in-dígenas nas Américas.
