Este estudo debruça-se sobre uma carta enviada pelo artista de vanguarda e modernista Almada Negreiros ao amigo Fernando Amado, a quem dedicaria o livro A Invenção do Dia Claro, publicado em 1921. A carta data de 1919 e nela Almada escreve um pequeno ensaio estético, no qual, segundo pretendo demonstrar, estão já expressas ideias que explorará poética e alegoricamente no livro de 1921 e que mostram de forma cabal a deliberada transição, ou metamorfose, do futurismo para a defesa de uma ingenuidade voluntária. Analisar a carta permite compreender a reflexão estética que leva Almada a fazer essa transição. Nesse processo, procurarei também analisar a importância da conjugação de duas referências fundamentais para Almada: por um lado, Nietzsche, por outro, o sensacionismo de Pessoa, tendo em conta ainda as afinidades e as diferenças entre a poesia do heterónimo Alberto Caeiro e A Invenção do Dia Claro, a que não será alheia a cumplicidade estética entre Pessoa e Almada face a esta matéria, de que é sinal, aliás, o facto de Pessoa ter editado o livro de Almada na sua editora, Olisipo.