A génese dos heterónimos constitui um problema central da crítica pessoana, que se tem concentrado na narrativa que o próprio Fernando Pessoa faz a Adolfo Casais Monteiro na célebre carta de 13 de Janeiro de 1935. O exercício que se propõe neste ensaio é um exame da génese da narrativa do “dia triunfal” em si mesma e, mais particularmente, do papel que Mário de Sá-Carneiro nela parece ter desempenhado. Nos termos do mito genético da carta a Casais Monteiro, esse papel teria sido meramente o do amigo a quem Pessoa se lembrara um dia de fazer uma partida. Contudo, a partida que o próprio Sá-Carneiro pregou a Pessoa entre Fevereiro e Maio de 1913, quando lhe relatou, nas cartas que lhe escreveu de Paris, o nascimento inesperado do poeta de Dispersão, prefigura, sob muitos pontos de vista, a partida que o próprio Pessoa pregaria depois a Casais Monteiro. É que, antes de do “Dia Triunfal” de Pessoa houve o “Dia de Ascensão” de SáCarneiro.