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Caderno "Assuntos Epistolares"

N.º 12 (2025): Caderno Assuntos Epistolares

O bicho-papão

DOI
https://doi.org/10.34619/dtxj-mjvl
Enviado
maio 14, 2026
Publicado
2025-11-30

Resumo

A 24 de Março de 1928, Fernando Pessoa envia um telegrama, com assinatura de Álvaro de Campos, a José Régio a felicitá-lo pelo poema “O Papão”, publicado uma semana antes no número 10 da revista presença. O poema não terá gerado em Fernando Pessoa apenas o entusiasmo de que o telegrama parece dar prova. Mais do que isso, serviu de estímulo a uma intensificação da produção poética de Álvaro de Campos, flagrante no mês de Abril de 1928, e reavivou uma preocupação metafísica antiga, característica do Fausto e agora deslocada para os interesses do heterónimo. A consequência directa, e mais óbvia, de tudo isto é a redacção, umas semanas mais tarde, a 12 de Abril, do poema “Demogorgon”. Neste artigo, defendo que esse poema deve ser lido em estrita contiguidade com outros dois poemas de Álvaro de Campos, datados de 14 e 15 de Abril de 1928, e que é nesse conjunto de três poemas, mais do que simplesmente no primeiro, que a influência do poema de Régio na poesia de Campos verdadeiramente se regista. É nesse conjunto também que Campos regressa à ideia muito curiosa, à qual já por várias vezes tentara dar expressão, sempre sem sucesso: a ideia de que a morte, mais do que o ponto final de um percurso de vida, constitui um regresso ao seu ponto de partida.